A
difusão da devoção ao Imaculado Coração de Maria foi a incumbência
específica dada por Nossa Senhora a essa privilegiada vidente.
A visita da Virgem Maria foi para a Irmã Lúcia “o início de uma singular missão, à qual ela se manteve fiel até ao fim dos seus dias”,
afirma o Papa João Paulo II na mensagem enviada ao Bispo de Coimbra,
por ocasião das exéquias da quase centenária freira carmelita.
Qual foi em concreto essa missão? A resposta, encontramo-la nas “Memórias” de Lúcia.
A graça de Deus será vosso conforto
Com aquela celestial Senhora “vestida de luz”, a vidente manteve vários diálogos. Já na primeira aparição, a 13 de maio, perguntou-lhe:
– E eu também vou para o Céu?
– Sim, vais.
– E a Jacinta?
– Também.
– E o Francisco?
– Também, mas tem que rezar muitos
Terços. (…) Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os
sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados
com que Ele é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores?
– Sim, queremos.
– Ide, pois, ter que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.
“Foi ao dizer estas palavras – esclarece a Irmã Lúcia, em suas memórias – que
abriu as mãos, fazendo penetrar em nossos peitos o reflexo que delas
expedia. A qual luz nos penetrava no peito e no mais íntimo da alma,
fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente
do que nos vemos no melhor dos espelhos. Então, por um impulso íntimo,
também comunicado, caímos de joelhos e repetíamos intimamente: ‘Ó
Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no
Santíssimo Sacramento’.
“Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:
‘Rezem o Terço todos os dias para alcançarem a paz para o mundo e o fim
da guerra’.”
Jesus quer servir-Se de ti para Me fazer conhecer e amar
Na segunda aparição, a 13 de junho, Nossa Senhora confiou à Irmã Lúcia uma missão específica, dizendo-lhe:
– A Jacinta e o Francisco, levoos em
breve, mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-Se de ti para
Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao
meu Imaculado Coração. A quem a abraçar, prometo a salvação, e serão
queridas de Deus essas almas, como flores postas por Mim a adornar o seu
trono.
E a eleita religiosa acrescenta:
“Nossa Senhora me disse que
nunca me deixaria e que seu Imaculado Coração seria o meu refúgio e o
caminho que me conduziria a Deus”.
Comentando essa confortadora promessa da Santíssima Virgem, Jacinta expande-se com sua prima em manifestações de amor:
“Aquela Senhora disse que o seu
Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá a
Deus. Não gostas tanto disto? Eu gosto tanto do seu Coração! É tão bom!
Gosto tanto do Coração Imaculado de Maria! É o Coração da nossa Mãezinha
do Céu! Tu não gostas tanto de dizer muitas vezes: Doce Coração de
Maria! Imaculado Coração de Maria! Eu gosto tanto, tanto! Doce Coração
de Maria, sede a minha salvação! Imaculado Coração de Maria, convertei
os pecadores, livrai as almas do inferno!”
Eu fico mais algum tempo na terra
A designação de Lúcia para uma missão
específica é relatada, com acréscimo de alguns pormenores, num diálogo
entre os três pastorinhos a propósito da aparição de 13 de junho de
1917. Francisco pergunta à sua prima:
– Para que estava Nossa Senhora com um coração na mão espalhando pelo
mundo essa luz tão grande que é Deus? Tu estavas com Nossa Senhora na
luz que descia para a terra, e a Jacinta, comigo, na que subia para o
Céu.
– É que tu, com a Jacinta, vais em breve para o Céu, e eu fico com o Coração Imaculado de Maria mais algum tempo na terra.
– Quantos anos ficas aqui?
– Não sei, bastante tempo!
– Foi Nossa Senhora quem o disse? – insiste Francisco.
– Foi. E eu o vi nessa luz que Ela nos fez penetrar no peito.
Ouvindo esta última afirmação, Jacinta exclama:
– É assim mesmo! Eu também assim o vi.
Esta gente fica tão contente só por lhe dizermos que Nossa Senhora
mandou rezar o Terço e que aprendesses a ler! O que seria se soubessem o
que Ela nos mostrou em Deus, no seu Imaculado Coração, nessa luz tão
grande! Mas isso é segredo, não se lhe diz. É melhor que ninguém o
saiba.
Amor ardente ao Imaculado Coração

E em outro trecho das “Memórias”, a Irmã Lúcia escreve:
“Parece-me
que, naquele dia (13 de julho de 1917, terceira aparição), este reflexo
teve por fim principal infundir em nós um conhecimento e amor especial
para com o Coração Imaculado de Maria, assim como das outras duas vezes o
teve a respeito de Deus e do mistério da Santíssima Trindade.
Desde esse dia, sentimos no coração um amor mais ardente pelo Coração Imaculado de Maria”.
Qual era a força desse amor, pode-se avaliar pela recomendação feita por
Jacinta à Irmã Lúcia em julho de 1919, pouco antes de ir para o
Hospital de Ourém: “Falta-me pouco para ir para o Céu. Tu ficas cá
para dizeres que Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Imaculado
Coração de Maria. Quando for para dizeres isso, não te escondas. Diz a
toda a gente que Deus nos concede as graças por meio do Coração
Imaculado de Maria, que as peçam a Ela. Ah! se eu pudesse meter no
coração de toda gente o lume que tenho cá dentro no peito a queimar-me e
a fazer- me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria!”
(Revista Arautos do Evangelho, Março/2005, n. 39, p. 24-25)